1º CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PEDAGOGIA ESPÍRITA REALIZA O 1º CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE
Por Tovar Jr.

Contextualizando
No presente artigo,ltaneam temos o objetivo de fazer algumas considerações acerca do 1º Congresso Internacional de Espiritualidade e Educação e 4º Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita, ocorridos simuente durante os dias 4,5 e 6 de setembro deste ano de 2010, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, capital.
Os citados eventos tiveram como escopo o compartilhamento de resultados de pesquisas realizadas em torno de temas afetos à Espiritualidade. Dentre estes, principalmente, a reencarnação. Pesquisadores como Jim Tucker ( professor da Universidade de Virgínia – USA, continuador do trabalho pioneiro de Ian Stevenson, sobre casos sugestivos de reencarnação), Antonia Mills ( pesquisadora da reencarnação entre os indígenas, professora da Universidade Nothern British Columbia do Canadá), Robert Cloninger ( professor de psiquiatria e genética e diretor do centro do Bem-Estar da Universidade de Washington), entre outros, estiveram presentes oferecendo-nos um rico painel sobre a atual produção científica relacionada ao tema da espiritualidade.
Pesquisadores brasileiros, como Dora Incontri ( coordenadora da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e organizadora do evento), Franklin Santana ( coordenador do curso de Tanatologia-Educação para a morte, vinculado à Faculdade de Medicina da USP), Alexander Moreira-Almeida ( professor da faculdade de medicina da UFJF), Régis de Morais ( livre-docente pela Unicamp, com mais de 50 livros publicados), entre outros, também estiveram presentes alargando-nos os horizontes no que concerne à comprovação objetiva da realidade do espírito, além de sua inevitável consequência no campo da Educação.
Ciência, Espiritismo e Educação
A professora Dora Incontri, em uma de suas participações durante o evento, salientou a relevância dos dois citados congressos por propiciarem um frutuoso diálogo entre a faceta científica representada, sobretudo, pelas pesquisas elaboradas pelos estrangeiros participantes e a faceta ético-filosófica caracterizada pela natureza da visão espírita a respeito dos fenômenos de cunho espiritual, representada, sobretudo, pelos brasileiros presentes. Harmonizadas em um todo coeso, segundo a citada professora, estas duas facetas redundam no paradigma do Espírito, basilar para o conceito pedagógico que se pode abstrair do Espiritismo.
Em que pesem os modelos educacionais que levaram e levam em conta a dimensão espiritual do ser, nenhum deles possui esta articulação com a ciência, como a proposta espírita de Educação. Por outro lado, em que pese a tão propalada natureza científica do Espiritismo – fundamento sobre o qual Kardec sisitematizou a Doutrina dos Espíritos – não temos uma tradição investigativa que leve em conta os métodos empíricos e experimentais aplicados aos fenômenos de natureza espiritual. Este, de fato, foi o grande mérito do encontro, pois nesta oportunidade juntaram-se farturas e lacunas, gerando um produto teórico bastante substancial, a partir do qual um passo largo foi dado para que continuem os ensaios de práticas educacionais legitimamente espíritas, posto que livres dos prejuízos dos dogmatismos e autoritarismos característicos das investidas catequéticas que não condizem com a abordagem ética e racional do Espiritismo.
Sobre a reencarnação
Em uma das duas obras lançadas durante os Congressos, intitulada Educação e Espiritualidade, Dora Incontri organizou dezenas de ensaios da autoria dos pesquisadores participantes do evento. Dentre os textos que compõem este livro, destacaremos dois em que seus autores abordam de maneira competente a questão da reencarnação entre os gregos.
Em Fontes pré-cristãs do Ocidente: aspectos da reencarnação no pensamento grego, Daniel Donnet ( professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Louvain, na Bélgica) trata da constante do princípio da reencarnação, desde a antiquíssima religião órfica e os pitagóricos na grécia, no pensamento de Empédocles de Agrigento, passando por Platão, alcançando o pensamento de autores da roma antiga, como Plutarco e ressurgindo em todos os sistemas nos quais o platonismo tenha maior prevalência do que o aristotelismo tomista. Deste modo, ele alcança o século XIX, período no qual observa-se o surgimento de várias correntes espiritualisatas que traduzem a busca de uma religiosidade livre das peias do cristianismo “oficial”. O Espiritismo surge neste cenário tal como se pode constatar pela auto-definição – “Filosofia Espiritualista” – que encontramos no frontispício de sua obra inaugural: O Livro dos Espíritos, publicada em 1857.
Donnet demonstra em seu ensaio como a doutrina da reencarnação, nos moldes da compreensão grega, permeia a cultura ocidental, ainda que este fato haja sido negado e mesmo combatido no contexto milenar de dominação ideológica cristã. Em suas considerações finais, nosso pesquisador acrescenta a especificidade do pensamento grego no panorama das doutrinas que adotam a perspectiva da reencarnação.
O outro ensaio ao qual gostaríamos de dedicar algumas palavras é o Educação e reencarnação em Platão, do pedagogo e mestre em Educação, professor Alessandro César Bigheto.
Neste texto, o autor evidencia o projeto educacional do importantíssimo pensador ateniense, o qual se fundamenta na concepção do educando como sendo um ser reencarnado. A partir desta perspectiva, Platão, assim como Sócrates, considera o ato educacional como uma recuperação de conteúdos já arquivados na própria alma do aprendiz – é a doutrina da reminiscência. A genuína construção do conhecimento, no entanto, não se daria no plano sensível ( no plano físico, diremos os espíritas), mas no plano das Ideias, antes da reencarnação, pois este é o estado possível para estar-se em contato com a verdade absoluta.
Ao ingressar em mais uma experiência de reencarnação, no entanto, os conhecimentos verdadeiros, construídos quando em contato com o mundo das perfeições seriam obnubilados pelo império dos sentidos.
No mais comentado mito platônico, vemos aquelas pessoas atadas por correntes no interior de uma caverna, tendo as costas voltadas para a entrada do local, iludindo-se com formas que se projetavam do exterior para o interior do recinto, em virtude da claridade de uma fogueira. Estes indivíduos não se atentavam para o fato de que aquilo que estavam enxergando eram simples projeções e não a realidade em si mesma. Na sequência da narrativa, no entanto, conta-nos Platão que um daqueles seres se liberta das correntes, vara a boca da caverna e se depara com a deslumbrante luz do sol; acostumado às trevas, sente arderem-lhe as retinas até que os órgãos da visão, normalizados, permitem-lhe vislumbrar o estimulante espetáculo da vida. Compadecido dos companheiros, regressa a fim de participar-lhes da boa nova, mas é incompreendido e hostilizado...
Com o mito da caverna, Platão demonstra a natureza e função do filósofo – que, neste caso, é a mesma do educador. Porque livre das amarras dos sentidos estaria apto a (re)conduzir o discípulo ao contato com a verdade - não por um processo mecânico de indução, mas pela capacidade de criar situações em que a essência do indivíduo possa desabrochar. O educador seria, então, aquele primoroso parteiro das ideias.
Em seu texto, Bigheto se utiliza de várias obras como Menon, Fedro, Fédon e A República para demonstrar a importância da ideia da reencarnação no projeto educacional platônico, não deixando de apontar que “ ele – Platão – não quer dizer(...)que o conhecimento da cultura e a transmissão de saberes não tenha um papel educacional.”. Mas que, na visão do discípulo de Sócrates “ A educação das coisas exteriores do mundo são importantes, somente na medida em que provocam na alma a recordação daquele arquétipo primitivo dos supremos valores morais e da verdade que a alma descobre dentro de si própria(...)” ( BIGHETO, 277:2010).
Em linhas gerais, são estes os assuntos tratados pelos excelentes textos que intentamos resenhar, de modo ainda vago e superficial, motivo pelo qual remetemos o leitor ao exame não só destas, como de todas as páginas da obra Educação e Espiritualidade ( ed. Comenius), a qual traz a suma de tudo o que se discutiu durante os três memoráveis dias dos congressos.
Conclusão
Possam eventos como estes marcarem a entrada do Espiritismo no século XXI, fazendo jus à expectativa do próprio Kardec, que enxergava-lhe a força na capacidade dinâmica de evolução, conquanto assentado em princípios atemporais e universais. Nunca, no entanto, estáticos.
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