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DORES FÍSICAS E MORAIS À LUZ DO ESPIRITISMO

Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados

Como para os que o não são.”

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

 Sem pretendermos esgotar as múltiplas questões que envolvem “o problema da dor” – tão profundo quanto a própria existência do homem sobre a Terra – gostaríamos de compartilhar com os leitores alguns pontos de vista de filósofos e escritores espíritas que tão lucidamente trataram do assunto. Nas obras O Livro dos Espíritos e O problema da dor, de Kardec e Léon Denis, respectivamente, por exemplo, recolhemos algumas reflexões que merecem nossa atenção, já que nos encontramos na condição de estudantes do funcionamento dos sentimentos cristianizados.

Os séculos nos têm ensinado a necessidade de compreendermos, em bases racionais, os mecanismos das leis divinas, única condição de deixarmos os postos de sofrimento em que, em maior ou menor grau, ainda estagiamos. A harmonia reina no Universo e, viajantes aprendizes, ansiamos aprender este “ bailado” cósmico para nos inscrevermos em registros que propiciem estados mais agradáveis e elevados. O sofrimento, portanto, como nos diz Denis, “nada mais é do que a repercussão das violações cometidas à ordem eterna”. E as causas milenares de nossos sofrimentos nada mais são do que as dores físicas e/ou morais.

A dor, portanto, é um recurso didático, próprio dos espíritos reencarnados ou desencarnados que ainda não compreenderam, em profundidade, os meios de harmonizarem suas individualidades com a “ Inteligência Suprema”. Em sua expressão física ou moral (emocional), é um indicador de que, por um ou outro motivo, que remonta a esta ou a uma existência pregressa, nós construímos determinadas situações que nos afastaram das “Leis Divinas ou Naturais”. Como somos aprendizes temos o direito de errar, mas isso não nos exime do dever de revermos as nossas posturas para aprendermos a nos ajustar aos princípios que regem o equilíbrio do átomo, assim como da galáxia.

Vista sob este ângulo, a dor nada mais é do que um mecanismo divino que nos avisa sobre nosso desajuste, impelindo-nos às atitudes necessárias ao reajustamento, e a consciência de cada qual é justamente a individualização deste mecanismo, onde se processa, em níveis profundos, a nossa relação com Deus. Partindo deste raciocínio chegamos à conclusão de que tudo se resume a um problema de relacionamento: de nós para com Deus, de nós para com o outro, de nós para conosco mesmos. Daí a recomendação crística: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.”

Neste sentido, os espíritos esclarecidos nos têm ensinado a enxergar os recursos que funcionam como antídotos para nosso restabelecimento relacional, o que irá gerar a sanidade emocional e orgânica. Um desses principais recursos, dos quais a população “física” do nosso orbe atualmente se beneficia, é a reencarnação.

Este mecanismo renovador, no entanto, como fartamente nos ensina, por exemplo, a obra de André Luiz/Chico Xavier, não é um fato isolado, mas um processo que inclui diversas etapas cuidadosamente elaboradas, a fim de que ofereça ao espírito nela incurso os melhores proveitos. O maior deles, com certeza, é a minimização ou anulação do sofrimento, o que, por sua vez, se dá na medida em que as construções íntimas da individualidade começam a coincidir com os princípios responsáveis pela harmonização cósmica. Estes, por seu turno, direta ou indiretamente, foram oferecidos pelo Cristo, em sua obra de amor e verdade.

O Mestre foi o maior entendedor e o mais eficiente praticante das leis naturais da vida: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e  permaneço no Seu amor” (Jo, 15-10). No entanto, a arte de nos sintonizarmos integralmente com as bases do pensamento divino é uma tarefa quase impossível para a maior parte dos homens que compõe a população terrestre. Neste sentido é que Kardec percebe, com lucidez, a lei da reencarnação como uma aplicação da Justiça divina. Em O Livro dos Espíritos, em seu comentário à questão 171, ele assim escreve: “A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o homem muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à idéia que fazemos da justiça de Deus, com respeito aos homens de formação moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros mediante novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam.”

O modo como lidamos com a dor pode ser fator decisivo em nossa construção íntima de felicidade, entendida esta como um estado de harmonia entre todas as dimensões da vida humana (biológica, social e psíquica). Este é um ponto delicado quando atentamos para o fato de que, atualmente, nossa sociedade criou uma série de mecanismos para eliminar a ação da dor. Não que isso seja um erro, mas levado ao extremo isso pode ser fator de fuga, o que impede que o sujeito lide com a realidade de sua condição, que recolha os ensinamentos de verdade que o podem beneficiar em seu aprendizado ético/moral. Citemos exemplos cotidianos: ao surgir uma dor de cabeça tomamos aspirina, ou qualquer outro medicamento, muitas vezes sem pesquisarmos a causa da dor, pois o que queremos é nos livrar dela, e não aprendermos com ela. Se alguém nos incomoda no lar ou no trabalho queremos nos ver livres do incômodo, para nos livrarmos da dor deste relacionamento, mas não queremos aprender com esta dificuldade. Se vamos fazer uma dieta alimentar procuramos, muitas vezes, os métodos mais rápidos e “tranqüilos”, pois não queremos passar pela aspereza da experiência de reeducarmos a alimentação, o que geraria a dor da mudança. Talvez seja por isso que em nossas preces, em vez de pedirmos a Deus a força para lidarmos com coragem e sabedoria nas situações de prova (situações de dor extrema), pedimos para que elas sejam afastadas, abrindo mão dos ensinamentos que elas nos podem oferecer. Há que se ter, portanto, muita cautela para que não passemos nossa reencarnação anestesiados perante as realidades mais duras da vida, pois isso seria vivermos em ilusão, já que estamos em franco processo de reeducação e isto exige ou provoca a dor, para modificarmos condicionamentos físicos e mentais adquiridos em inúmeras outras circunstâncias reencarnatórias.

“Vinde a mim todos vós que estais sobrecarregados e eu vos aliviarei.” Chico Xavier, concedendo entrevista ao programa Pinga Fogo, em julho de 1971, dá interessante interpretação deste versículo do Cristo, dizendo que o Mestre nos chama para que nossas dores sejam aliviadas,mas não retiradas. Ou seja, podemos levá-la ao nível do suportável, a fim de lidarmos com ela, sem que nossa vida seja paralisada por seu influxo. Eximirmo-nos de sua ação, no entanto, é impossível, se objetivamos o crescimento interior, a educação de nossas possibilidades espirituais, a mudança da natureza de nossos sentimentos.

Poderíamos, para concluir este texto, alinharmos inúmeros e belíssimos pensamentos sobre a visão do que são a dor e o sofrimento sob o ângulo da aprendizagem espiritual. Escolhemos, no entanto, o do filósofo Léon Denis, que diz: “A dor, as provações fazem jorrar em nós as fontes de uma vida desconhecida e mais bela. A tristeza e o sofrimento nos fazem ver, ouvir, sentir mil coisas, delicadas ou poderosas, que o homem feliz, o homem preso à ilusão da matéria, não pode perceber. O mundo material se obscurece; um outro se desenha. Vagamente, a princípio, mas que se tornará cada vez mais distinto, à medida que nosso olhar se desprender das coisas inferiores e mergulhar no ilimitado.”

Em linhas gerais, são estas as reflexões que gostaríamos de compartilhar com os amigos, leitores do Evangelho e Ação. Incentivamos, porém, que não abram mão de pesquisarem suas próprias fontes no manancial vastíssimo de sabedoria de que se constitui atualmente a bibliografia espírita.

 Boas leituras!

 Tovar Jr.