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Histórico
A campanha do quilo
como uma atividade cristã-espírita teve início nos idos de 1952, no Centro
Espírita Oriente, hoje conhecido como Grupo da Fraternidade Irmã Scheilla.
Existe a informação de que a Sociedade Espírita Nina Aroeira já realizava
essa atividade desde 1949, sob a direção e entusiasmo de um valoroso
espírita mineiro, o irmão Machado, e com o nome de Caravana de Alegria
Cristã. Presume-se que tais trabalhos duraram pouco tempo, e infelizmente
não foi possível acessar outros registros sobre o assunto.
Em 1952, o Grupo da
Fraternidade Irmã Scheilla realizava reunião pública às quintas-feiras. A
irmã Leda Morais coordenava, na época, uma atividade muito meritória e, de
público, exortava as pessoas presentes a trazerem na semana seguinte um quilo
de qualquer alimento com destinação a algumas famílias pobres assistidas
pelo agrupamento.
O jovem Jarbas Franco de
Paula, que freqüentava a instituição há pouco mais de um ano, tomou a
atitude de procurar o seu presidente, o irmão Gabriel Sândi, no intuito de
apresentar a ele tais idéias, e o diálogo transcorreu da seguinte maneira:
- Senhor presidente,
permita-me uma sugestão, já que vejo o esforço sem muitos resultados da
nossa irmã Leda, de angariar gêneros alimentícios para serem distribuídos
às famílias assistidas pela nossa instituição.
- Do que se trata, meu jovem?
- Por que não realizamos uma campanha nas
ruas, para aumentar a arrecadação de mantimentos a serem ofertados?
- Ora, Jarbas, isso poderá trazer problemas
inesperados e de difícil solução. Ademais, uma atividade assim só
comporta ser realizada por criaturas jovens.
- Compreendo, mas faço-lhe um pedido e
ficarei imensamente grato, se atendido.
- Qual é? Eu preservo a instituição; no
entanto, sou uma pessoa aberta e tenho sensibilidade.
- Autorize a realização de uma, uma só,
campanha para efeito de experiência.
- Bem, uma só, eu autorizo.
Na quinta-feira seguinte, o
Jarbas, cheio de entusiasmo, fez o convite em plena reunião pública para que
pessoas participassem da nova atividade a acontecer, a partir das 8 horas do
domingo. Percorreriam a rua Itajubá e algumas ruas adjacentes no bairro
Floresta.
Assim, num belo domingo de
junho de 1952, o grupo, formado por Jarbas Franco de Paula, Leda Morais, José
Lopes Souza Lima e sua esposa Isaura, Vicente Wendling e Cacilda Morais,
inaugurou o ciclo permanente da campanha do quilo em Minas Gerais.
Foi tanta a arrecadação,
que os sacos de farinha destinados a abrigar as doações não foram
suficientes. A pequena despensa ficou abarrotada.
Ficamos a imaginar a alegria
daqueles caravaneiros e a sintonia fina que eles alcançaram com a
Espiritualidade.
Atendamos agora a expectativa
do leitor: é claro! O presidente da instituição não teve como interromper "A
Campanha do Quilo" iniciada. Conta-se, inclusive, que, a partir de
julho do mesmo ano, ele com esposa e filha reforçaram o time do bem.
Início
Generalidades
A campanha do quilo
constitui uma das atividades mais nobres realizadas pelos espíritas. Existem
notícias de tal atividade desde os primórdios da segunda metade do século
passado, o que significou uma verdadeira revolução e mudanças de costumes,
já que o centro espírita era tradicionalmente fechado em si mesmo, e as
ações externas, além de restritas, sofriam um julgamento equivocado do
público em geral.
Com uma certa timidez,
algumas casas espíritas, naquela época, realizavam visitas a enfermos com
aplicação do passe de magnetismo humano-espiritual e, como os resultados
fossem auspiciosos, houve um encorajamento dos espíritas para a vivência dos
ensinos do Cristo, corroborados por Allan Kardec: A fé sem obras é morta;
fora da caridade não há salvação!
Hoje um universo de mais de
cem casas realiza a campanha com regularidade, aos sábados ou domingos,
exatamente pela facilidade de arregimentar tarefeiros ou voluntários tanto
como pela possibilidade de encontrar os moradores em seus respectivos lares.
Essa é das tarefas primeiras
a se recomendar ao incipiente espírita! Tão logo o freqüentador se
identifique com a Casa e alcance relativo padrão de harmonia interior, desde
que manifeste desejo e se disponha a atender as normas explicitadas, estará
apto a participar de tão sublimada atividade espiritualizante. Não se exige
desse tarefeiro profundos conhecimentos doutrinários e evangélicos, nem
tampouco atestado de bons antecedentes morais, até porque a maioria de nós
está à semelhança do filho pródigo, isto é, o Senhor da Vida nos
dignifica com oportunidades de reparação dos nossos equívocos pretéritos e
construção de um futuro mais feliz. O hoje é então a oportunidade
inadiável!
A campanha do quilo atende,
em simultâneo, duas missões características do centro espírita: a de
OFICINA, pelo trabalho assistencial propriamente dito; a de TEMPLO, pela
dilatação dos limites físicos da instituição, irradiando-a até os lares
visitados.
Como oficina: vários
trabalhadores deixam a comodidade dos seus lares, o prazer do divertimento nos
clubes ou dos passeios nos sítios, para carregarem, nas mãos, sacolas ou
fardos, deslocando-se para aqui ou acolá, muitas das vezes em árduas
caminhadas, enfrentando situações inesperadas e de perigo; para recolherem
de corações generosos a peça de roupa, o remédio, o brinquedo velho, o
livro usado, a barra de sabão, o quilo de feijão, o pacote de arroz, o
macarrão, a moeda, o sapato e seja lá o que for, até um pedaço de pão.
O CAMPANHEIRO, assim é
chamado o tarefeiro da campanha do quilo, retorna alegre e descontraído,
sabendo que os produtos arrecadados serão cuidadosa e criteriosamente
guardados na despensa, por ele ou outros tarefeiros. As sacolas, análogas às
cestas básicas conceituadas popularmente, conterão o indispensável para
atender as mínimas necessidades de famílias carentes, previamente
cadastradas, e que vivem em estado de exclusão social. Ele se rejubila por
ser um instrumento dos Céus para auxiliar os desprovidos do conforto
material. Lembra-se ele da afirmação carinhosa do meigo Rabi da Galiléia: "Vinde
benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a
fundação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me
destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu e me vestistes;
enfermo e me visitastes; preso e fostes ver-me. Então perguntarão os justos:
Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? ou com sede e te
demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? ou nu e te
vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? Em verdade
vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a
mim o fizestes" (Mateus, 25 de 35 a 40).
Como templo: a partir
do momento em que uma ou mais equipes se distribuem para várias regiões da
cidade, configura-se aí algo à semelhança de um centro espírita ambulante:
levam-se a cada lar visitado as vibrações imanentes e características da
própria casa espírita. É o odor de Jesus a espalhar-se, e nem um propósito
outro que o desejo de servir toca a alma do campanheiro. Ele está impregnado
do sentimento de solidariedade e será instrumento para outros também
praticarem a solidariedade! A alegria cristã a vestir sua alma estancará,
ainda que momentaneamente, emoções controversas de muitos que receberem o
seu cumprimento cordial. Uma casa espírita que se irradia e se dinamiza; é
um templo vivo, penetrando a intimidade dos lares onde um coração servidor
bate e se apresenta!
Início
Aspectos Morais
Essa tarefa tão meritória
do ponto de vista espiritual enseja conquistas morais de alta relevância, nem
sempre registradas pela nossa percepção vulgar. Alguns sensos são
desenvolvidos no tarefeiro em causa, principalmente os da humildade, da
solidariedade, do respeito e da benevolência. Este servidor do Bem é também
agente de transformação de muitas criaturas conclamadas a doar, aguardando
estas somente uma oportunidade, um aviso, um empurrão para darem novos rumos
a sua trajetória existencial, sendo preciso, pois, ao companheiro levar as
marcas do Cristo para o interior de cada lar visitado.
Aquele cujo coração irá
ser sensibilizado, quando da visita da campanha do quilo, internaliza no seu
imo o embrião de futuras aquisições, todas nascentes do gesto da caridade
induzida! Poderão despertar nele o desejo do gesto futuro de caridade
espontânea; da reflexão quanto a sua relação com o semelhante; da busca de
novos roteiros para dar nova motivação e alegria a sua vida; da revisão da
própria conduta no meio familiar, buscando o verdadeiro significado da
existência terrestre. Exemplifiquemos com alguns dentre inúmeros casos
registrados nessa tarefa:
1º Caso: O irmão presidente
Residíamos, nos primórdios
da década de setenta, na cidade de Teófilo Otoni, onde freqüentávamos o
Grupo da Fraternidade Joseph Gleber. Como éramos egressos de movimento
juvenil espírita, colaboramos para que se fundasse naquela instituição a
Mocidade Espírita. Depois de algum tempo, sugerimos a criação da tarefa da
campanha do quilo. A diretoria da casa aprovou, e seu presidente, o irmão P.,
com muito entusiasmo, incentivou para que imediatamente iniciássemos tão
nobilitante atividade.
Externamos convite ao irmão
P. para participar conosco, e isso tinha um aspecto motivador; no entanto ele,
habilmente, se esquivou alegando compromissos familiares ou justificando ser a
tarefa mais apropriada aos mais moços. O nosso querido presidente era pessoa
culta, de prestígio e muito conhecido na sociedade. Diante da nossa
insistência fraterna, ele acabou cedendo e esclareceu que, no final de semana
seguinte, iria conosco, mais para conhecer a tarefa, conviver conosco e servir
de motorista transportando campanheiros e produtos arrecadados. Ficamos
deveras satisfeitos, e tudo transcorreu conforme combinado.
Observamos que o irmão P.
ficava no veículo ou nas suas proximidades, algo tímido, até que numa rua
de moradias ricas surgiu, do belo jardim de uma casa, o proprietário para nos
atender. O cavalheiro, logo após os cumprimentos, teve sua atenção desviada
e de repente gesticulou e, em alta voz, chamou: P.! Oi, P.! E se dirigiu ao
nosso irmão presidente.
- Você, por aqui! Que boa surpresa. Há
muito tempo não nos víamos!
- É verdade, respondeu o nosso irmão, com
certo constrangimento.
- Que bons ventos o trazem à porta de minha
casa? Venha, vamos entrar.
- Não posso, fica para outro dia.
- Como assim, meu amigo? Você não vai me
fazer essa desfeita!
- Mas...Eu... estou com eles!...
- Se são seus amigos, serão meus também.
Entremos todos; vamos conversar e tomar um cafezinho.
Atendendo a um dever
cristão, aproximei-me e envolvi-me no diálogo:
- Que bom conhecer um amigo do querido
irmão P. Ele tem razão, hoje não nos é possível entrar na sua casa
para uma conversa agradável e mais demorada. Estamos fazendo a campanha
do quilo.
- O que é isto? O que é uma campanha do
quilo?
- É uma atividade que realizamos aos
domingos por conta do Grupo da Fraternidade Joseph Gleber. Deslocamo-nos
para bairros diversos e batemos à porta de corações generosos, para que
nos ajudem a ajudar. Tudo para nós é de utilidade, seja lá uma roupa
antiga, brinquedos usados, gêneros alimentícios, moedas ou o que for. Do
arrecadado, preparamos sacolas para serem distribuídas para famílias
muito pobres e em estado de miséria social.
- Amigo P., você participa de tudo isso?
- Sim, junto com eles, os meus amigos.
- Parabéns! Eu sabia que você é
espírita, porém ignorava que esta religião fosse capaz de tanta
expressão de generosidade.
Quero ainda conhecer os
trabalhos de vocês com mais detalhes.
O irmão P. foi até ao
alpendre e ficou a aguardar o retorno do amigo. Depois o vimos sorridente
segurar, nos dois braços, um pesado fardo de arroz e caminhar
principescamente até o jipe. Daí em diante, ele quase sempre se encarregou
dos contatos iniciais com os irmãos em humanidade, convidados a encher as
sacolas da campanha do quilo.
2º Caso: A ação policial
A equipe nº treze da
campanha do quilo, do Grupo da Fraternidade Irmã Scheilla, deslocava-se por
ruas do bairro São Pedro, na região de Venda Nova, quando dois soldados, que
estavam num bar-mercearia, indagaram o que aquela equipe fazia ali e qual o
conteúdo das sacolas transportadas.
O irmão Moacir educadamente
esclareceu. O soldado em seguida questionou:
- Como vocês podem comprovar a veracidade
de tudo isso?
- Perfeitamente, e o Moacir logo apresentou
uma sacola com caracteres imprimidos, além de uma mensagem psicografada
que continha os dados principais do Grupo da Fraternidade Irmã Scheilla.
- Isso nada comprova, respondeu asperamente
um dos policiais, determinando que os dois campanheiros penetrassem na
viatura policial.
Nesse momento, chega o Almir
Lima acompanhado de um irmão que, pela vez primeira, realizava a campanha do
quilo.
Surpreso perguntou:
- O que se passa? Por que estão nesse
veículo?
- Quem é você? Por que tem também essa
sacola na mão?
- Eu sou o Almir e tenho a responsabilidade
de coordenar a equipe treze da campanha do quilo!
- Ah, é?! Você também faz essa tal de
campanha, não é?
- Sim, e com muita alegria no coração.
- Venham cá, você e seu amigo, e entrem no
camburão também. Eu sei que campanha é essa!...
Nisso o irmão que
acompanhava o Almir, com muita calma, entra no diálogo:
- Meu amigo, posso até ir com você, mas
não aí. Tem de ser num carro especial.
- Como assim? Não brinque conosco, as
coisas podem complicar para o seu lado!
Sem pressa, ele retirou do
bolso sua carteira de Coronel da Polícia Militar e apresentou. Ato contínuo,
os homens da lei fizeram-lhe continência e pediram-lhe mil desculpas.
O campanheiro poderia ter
tomado várias atitudes, algumas até com prejuízos graves para os policiais,
no entanto, somente asseverou: "sigam seus caminhos e procurem,
doravante, ser justos e retos no exercício de uma profissão tão importante
para a sociedade" (fato relembrado pela irmã Deliz Nogueira S. Fonseca).
3º Caso: A Testemunha de Jeová
Estava a relembrar com o
Jarbas Egídio Martins alguns casos ocorridos na tarefa da campanha do quilo,
da qual ele participa há trinta e nove anos. Escolhemos um para relatar e ele
disse: Alan, logo esse tão negativo? Expliquei-lhe que o negativo
muitas das vezes instrui, servindo de preciosa lição para o futuro.
Contou ele que a equipe
dezessete realizava a campanha, no bairro União, há cerca de trinta anos
atrás. O irmão M. bateu palmas e um senhor de meia-idade apareceu no
alpendre, ligeiramente desnivelado em relação ao piso do passeio público, e
travou com ele o seguinte diálogo:
- Bom dia, meu irmão. Estamos pedindo algo
a favor de criaturas pobres.
- Bom dia, de onde vocês são?
- Fazemos a campanha do quilo e somos do
Centro Espírita Oriente.
- Espíritas? Sai de mim, Satanás!
- Não somos criaturas malignas. Somos do
bem.
- Os espíritas têm pacto com as trevas.
- Nós também somos filhos de Deus!
- Vocês são filhos do Diabo!
- Você está sendo tão cruel conosco. Qual
é a sua religião?
- Sou Testemunha de Jeová e acredito no
poder de Jesus.
- Nós espíritas também.
- Vocês evocam os mortos e Moisés condenou
essa prática. Vocês são mestres em bruxarias, adivinhações e
sortilégios.
- O irmão está muito enganado. Jesus
enalteceu a mediunidade utilizada para o bem. Paulo, o apóstolo, também.
- Saiam já da minha casa.
- O senhor é atrevido. Nós nem penetramos
na sua casa, e o senhor está nos expulsando?
- Estou, sim. Não quero mais discutir e
estou perdendo a paciência.
- Pelo que vejo, o senhor não tem
argumentos. Não temos como chegar a um acordo. O seu desrespeito foi
enorme.
- Espere só, que volto já!
- Venha até aqui que resolveremos nossas
diferenças no braço.
Nisso, o Jarbas tomou o
irmão M. pelo braço, concitou-o ao silêncio e a que pensasse em Deus.
Dirigiu-se logo a seguir ao evangélico e disse-lhe:
- Peço-lhe perdão, não tínhamos o
direito de ofendê-lo. Jesus ampare o seu coração. Fique em paz.
Jarbas conta que o fato foi
uma lição inesquecível e, a partir de então, os campanheiros ficaram mais
vigilantes com a palavra, não olvidando que, para atingir os objetivos da
tarefa, importa até sofrer humilhações, se for da vontade do Criador.
Início
Aspectos Espirituais
Tão importante quanto
ofertar o mantimento ao corpo físico do irmão que sofre é levar uma parcela
de luz a tantos lares que jazem em trevas profundas, onde muitos são ricos de
moedas, mas pobres de paz. Esse é um quadro muito comum aqui na Terra. A
paisagem exterior, retratando beleza e conforto, nem sempre reflete os
sentimentos íntimos das criaturas albergadas nas moradias terrestres. É
comum, mesmo diante da abastança, depararmos com lares tristes e almas
angustiadas, depauperadas vivendo dramas e padecimentos morais inimagináveis
ao observador comum. Acresce-se a isso a dissonância entre os seus membros e
situações de maior ou menor gravidade no campo das doenças obsessivas.
São incontáveis os lares do
mundo, vergastados por dor invisível que os recursos terapêuticos da
medicina tradicional não consegue debelar. São dores agudas despontando de
dramas morais com causa no pensamento infeliz, na palavra insensata e na
atitude cruel do ontem.
O tarefeiro da campanha do
quilo nem sempre é sabedor da sua missão ao contato com esses infelizes
ocultos. Recolher doações nesses domicílios será mero pretexto. A
espiritualidade pretende muito mais, e uma multidão de espíritos engrossa a
caravana; prepara o ambiente psíquico; cuida da assepsia da trilha por onde
se deslocam os servidores do bem e amortece as vibrações contraditórias dos
lares a serem visitados!
Ademais, em virtude das
emissões vibratórias sublimadas pelo Amor Fraterno de que se reveste o
Campanheiro, enquanto é atendido, no mundo material, pelo irmão doador que
oferta mantimentos que alimentam corpos desafortunados, muitos irmãos, no
mundo espiritual, são resgatados de cada lar visitado, quase sempre em
profundo desequilíbrio; outros, que atentos, em todo o trajeto, reconhecendo
a sinceridade dos sentimentos e a nobreza da conduta do Campanheiro, pautada
pela humildade, compreensão, fraternidade e bondade, abrem seus corações e
confiantes na ajuda do plano superior, alimentados de propósitos
regeneradores e construtivos, são levados por caravanas do plano invisível,
para se tratarem nas inúmeras Casas de Jesus.
O Senhor da Vida protege
todos os seus filhos, e é da lei ninguém ficar à margem do progresso.
Mencionamos no início deste trabalho que a campanha do quilo assume o aspecto
de uma casa espírita ambulante, isto é, o Centro Espírita vai para as ruas
penetrando a intimidade dos lares. Cada campanheiro torna-se um médium dos
céus e por ele transitam recursos, na forma de auxílio que sofre ou não
registro. É da lei também que todas as criaturas se movimentem em regime de
liberdade. O Senhor da Vida não impõe a transformação de ninguém.
Ilustremos com alguns dentre tantos casos de auxílio desse jaez:
1º Caso: O pai infeliz
Participamos, há anos, de
uma reunião de desobsessão e, precedentemente ao seu início efetivo,
realizamos uma tarefa de atendimento fraterno, mais voltada para prováveis
irmãos portadores de transtornos, tipo obsessão espiritual. Notamos um
cavalheiro algo mais ansioso, aguardando atendimento.
Quando da sua vez e após as
saudações iniciais, ele nos confiou que o seu estado era de desesperança.
Indaguei-lhe:
- O que foi, meu irmão? Por que a tristeza
profunda?
- O meu martírio é imenso. Minha vida
perdeu significado, aliás, nem sei bem a razão de minha presença aqui.
Já havia decidido exterminar a minha vida.
- Como assim, meu irmão, a vida é um dom
precioso e mesmo diante de pungentes dificuldades ela merece ser vivida.
Se você quiser, fale do seu drama.
- Ah moço, eu era feliz até descobrir que
meu único filho tinha comportamento homossexual, e o meu lar desmoronou.
Todos os meus projetos passavam pela felicidade dele.
- Sim, meu irmão, nós sempre queremos o
melhor para os nossos filhos e às vezes até projetamos para eles o que
desejaríamos para nós.
- Está certo, porém a humilhação foi
imensa e achei como melhor solução expulsá-lo de casa, mas esse
procedimento não resolveu o problema. Por isso decidi matar-me.
- Você não fará isso. Deus não quer e
para tudo existe solução, mesmo que ela não esteja visível e tão
próxima! Você quer receber a ajuda desta casa?
- Claro, diga o que me convém fazer?
Nós lhe explicamos a
linha de tratamento, no entanto não refreamos o impulso de lhe fazer uma
pergunta:
- Como o irmão veio parar em nossa
instituição?
- Ah sim, algumas pessoas bateram à porta
do meu apartamento e disseram estar realizando a campanha do quilo. Fiquei
atraído pela gentileza de uma senhora de relativa idade, vestida tão
simplesmente e ajudando um jovem a carregar uma pesada sacola com os
produtos já obtidos em outras casas. Conversando, despertou-me o
interesse em conhecer um lugar que torna as pessoas tão boas e
desprendidas.
2º Caso: A moça desesperada
A equipe número oito da
campanha do quilo do Grupo da Fraternidade Irmã Scheilla, sob a coordenação
do Ernesto, bastante numerosa, atendia a uma vasta região do Barreiro. Numa
das casas, veio uma moça de aspecto muito aflitivo, apresentando visível
sofrimento interior.
Ernesto, certamente
sintonizado com a espiritualidade, indagou:
- Por que uma moça jovial e bonita está
tão triste?
- Ah, eu sofro muito; ninguém me compreende
e estou muita revoltada com a vida.
- Ainda assim, não vale a pena a tristeza;
afugente-a e sua vida estará mudada.
- Olhe, moço, vou-lhe contar algo que
pessoa alguma sabe. Já tenho guardado no banheiro da minha casa um frasco
de formicida. Vou me matar!
- Você não fará isso. Dar-lhe-ei o
endereço do Grupo da Fraternidade Irmã Scheilla, onde as pessoas recebem
consolação. Fique em paz. Estaremos orando por você.
A moça, daqueles tempos, é
hoje valorosa servidora do Cristo. Participa como cooperadora de reunião de
desobsessão, faz a campanha do quilo e alegra os pacientes dementados do
Hospital Raul Soares quando dedilha no violão músicas de grande enlevo
espiritual (a irmã Marízia Nascimento ajudou na lembrança deste caso).
Início
Normas e Procedimentos
Referimo-nos, no início do
texto, às normas da instituição a serem observadas tendo em vista o bom
êxito da tarefa. Elas devem ser simples, elementares, norteadoras e
revestidas do espírito cristão. Destaquemos alguns pontos que se afiguram
mais importantes na sua elaboração:
- Necessidade de nomear um coordenador da
campanha do quilo tanto como os responsáveis pelas equipes no caso da
existência de um número mais significativo de campanheiros;
- Início da atividade com uma leitura
evangélica e prece, e conclusão igualmente com uma oração de
agradecimento, respeitando-se a impossibilidade do retorno de alguns;
- Disciplina de horário para o início e
fim da atividade;
- Mapeamento prévio dos bairros e ruas a
serem visitados, evitando-se a improvisação contraproducente;
- Planejamento do roteiro a ser percorrido a
cada semana, elaborado com a devida antecedência;
- Boa articulação com o movimento
espírita local, evitando-se o comparecimento de equipes de casas
espíritas distintas num mesmo logradouro e no mesmo dia;
- Abordagem aos moradores dos lares
visitados sempre com dois ou mais campanheiros, de forma breve, serena e
genuinamente cristã;
- Atenção para não haver dispersão entre
os membros da equipe, resultando em desgoverno e ausência de unidade,
tão essenciais ao sucesso da ação;
- Dimensionamento da equipe de modo a haver
um desejável equilíbrio entre elementos masculinos e femininos.
Lembrar-se que tal momento não é para namoro;
- Exclusão de crianças nesse tipo de
ação assistencial, propiciando-lhes, sim e compativelmente, o ensino
moral e atividades lúdicas na intimidade da própria casa espírita;
- Ausência de conversações contrárias
aos objetivos da tarefa, mantendo ambiente propício a atrair a presença
dos bons espíritos;
- Abstinência de bebidas alcoólicas, do
fumo e de assemelhados durante todo o período da tarefa, guardando a
sintonia indispensável entre os membros do grupo e com os espíritos que
assistem na invisibilidade;
- Gentileza, fineza de trato e discrição
no contato com o morador. A primeira impressão é fundamental;
- Estado permanente de alegria e
cordialidade, mesmo diante dos transeuntes apressados ou zombeteiros;
- Utilização de sacolas ou similares, se
possível, com a identificação da instituição, granjeando a simpatia e
a confiança daqueles convidados à atitude fraternal;
- Uso de crachá que contenha os dados da
casa espírita e o nome do campanheiro, como forma de apresentação do
mesmo diante dos lares visitados;
- Distribuição de mensagens de conteúdo
evangélico, se possível, porém guardando o respeito indispensável à
opinião e crença dos outros;
- Manutenção da serenidade diante da
recusa do auxílio solicitado, ou da agressão de qualquer natureza,
afastando-se silenciosamente e emitindo pensamentos fraternais. O Mestre
nos recomendou evitar as contendas. As polêmicas em situações como
essas são geradoras de mal-estar e azedume;
- Aproveitamento do momento adequado para
externar convites referentes a visita e conhecimento desta ou daquela
tarefa da instituição;
- Procedimento coletivo onde campanheiro
algum leva recursos de qualquer natureza, angariados na campanha do quilo,
ainda que sob pretexto de assistir alguma família carente;
- Cooperação por parte dos mais jovens
transportando as mercadorias e fardos obtidos;
- Educação na abordagem evitando,
inclusive, a insistência com a campainha face à demora no atendimento;
- Prudência, evitando comentar quadros
espirituais percebidos num ou noutro ambiente visitado, susceptíveis de
traumatizar ou de criar situações embaraçosas;
- Conversão do campanheiro em trabalhador
ativo da casa espírita, participando de reuniões públicas e de estudos
evangélicos doutrinários;
- Aplicação dos valores em dinheiro
arrecadados com exclusividade na assistência às famílias carentes;
- Formação de equipes ou subequipes não
excedendo de dez membros, quando existirem muitos tarefeiros disponíveis.
Vale considerar que a
grandeza da tarefa, muitas das vezes, desperta e estimula os visitados a
conhecerem o espiritismo, sem dizer daqueles que se tornaram espíritas,
quando um dia, na plena intimidade dos seus lares, foram tocados pelas
vibrações harmoniosas dos tarefeiros da campanha do quilo!
Fonte:
Encontro de Tarefeiros da Campanha do Quilo
PROMOÇÃO:
ALIANÇA MUNICIPAL ESPÍRITA DE BELO HORIZONTE (AME/BH)
Célio Alan Kardec de Oliveira
Presidente do Conselho
Espírita Municipal da AME-BH
Belo Horizonte, 07.03.2002
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