Comemoração: Aniversário  JOÃO CABETE (1919/1987) 

Reunião de 3O Domingo do mês de abril/2003 na Fraternidade Espírita Irmão Glacus em homenagem a João Cabete

Apresentação do Coral Espírita Irmão Glacus.


Grupo interpretando canções de Cabete.


 
 
 

Gratidão à Deus

(Autoria: João Cabete)

Quando a sombra da tristeza
cobrir seus sonhos de ventura.
Quando você quiser chorar
diante da taça da amargura.

Quando a dor bater à porta
ferindo bem fundo o coração.
Quando a esperança é morta
e a vida amarga ilusão.

Olhe para trás,
veja quanta dor!
Súplicas de paz
clamando amor!

Olhos sempre em trevas!
Mãos mendigam pão!
Bocas que não falam
e risos sem razão...

Deixe de chorar!
Volte a sorrir.
Você é tão feliz
volte a cantar!

Faça uma prece,
seja grato à Deus!
Ele sempre abençoa
os filhos seus!

 


 

Cada vez mais, várias pessoas e casas espíritas estão descobrindo o poder da música doutrinária para a elevação do padrão vibratório e a harmonização de ambientes. São inúmeros músicos, encarnados e desencarnados, que trabalham em favor de sua divulgação, uma batalha antiga, mas que vai ganhando a cada dia mais espaço e importância.

João Cabete foi um destes tantos lutadores e divulgadores da música espírita. Escreveu mais de 200 composições, interpretadas hoje por vários grupos e corais espalhados pelo Brasil. Entre as mais conhecidas, estão músicas como "FIM DOS TEMPOS", "ALÉM DAS GRANDES ESTRELAS" E "ALMA DAS ANDORINHAS".

Filho de imigrantes portugueses e caçula de cinco filhos, Cabete nasceu em 03 de abril de 1919 na cidade de São Paulo (SP), local onde passou sua infância e juventude. Apesar dos momentos difíceis, principalmente pelo fato de ter perdido o pai aos oito anos de idade, a veia musical esteve sempre presente. Desde pequenino, acompanhado de seu inseparável violão, já fazia apresentações em movimentos promovidos pelos rádios da comunidade portuguesa.

Ao longo da vida, João Cabete conquistou muitos amigos e irmãos sinceros dentro da doutrina espírita, bem como parceiros musicais, entre eles Welson Barbosa, Raphael Ranieri, Caribé e outros. Sua fonte de inspiração verdadeira, sempre foi à natureza e Deus em sua grandeza. A maioria de suas composições foi feita ao pé do piano, instrumento para o qual nunca estudou, mas que tocava muito bem.

João Cabete foi casado com Ady Lourdes Mantovani, hoje desencarnada. Teve cinco filhos: Dinazara Lourdes Cabete, João Euclides Cabete, Denise Cinira Cabete e Lílian Cristina Cabete (filha adotiva).

E em uma carta endereçada a nós, Dinazara, sua filha nos diz: "Elaborar a biografia de um ente querido não é simples. Muitas pessoas já nos pediram e sempre que começamos, nos esbarramos nas lembranças, nos exemplos deixados, nos amigos que já se foram e assim a emoção acaba sempre por nos interromper. Meu pai nos deixou uma grande herança espiritual, da qual pensávamos ter plena consciência. O que se passa neste momento é que sem sua presença, acabamos descobrindo que o trabalho que ele fez, e que naturalmente continuamos junto com grandes companheiros, nos amadureceu ao ponto agora de enxergar com bastante profundidade quem realmente era este nosso ente querido, por isso talvez, nos fica mais fácil falar, lembrar, meditar e escrever sobre aquele do qual já nos aproximamos de discernir como um irmão em espírito".

Ainda jovem, João Cabete, trabalhava em uma indústria; a dificuldade era grande, mas assim como também era grande seu otimismo, ele colocava sempre à frente dos obstáculos conseguindo vencê-los sempre.

Além de sua paixão pela música, João Cabete concluiu o curso da Faculdade de Direito depois dos 40 anos de idade, ocasião em que foi orador de sua turma. Tornou-se tabelião na cidade de Cruzeiro (SP), no 20º Cartório de Notas e Ofícios, em 1953.

Segundo sua família, João Cabete sempre foi uma pessoa muito disposta e que usou seu tempo na Terra como algo precioso. Entre as diversas atividades, pertenceu ao Rotary Club (do qual foi presidente) e fundou uma obra social denominada S.O.S. Dentro do Movimento Espírita foi filiado a OSCAL, da qual foi um dos fundadores e um membro atuante.

Cabete não chegou a gravar um CD, mas tinha um amor muito grande pelo Coral Espírita Irmã Scheilla, pertencente ao Grupo de Fraternidade de mesmo nome, daqui de Belo Horizonte tanto que suas músicas foram gravadas e interpretadas por eles. Outros cantores, grupos e corais espíritas também tiveram o prazer de gravar Cabete. O Grupo Sinfonia do Amor, por exemplo, traz músicas compostas por Cabete nos CD’S Cabete por Eloi Braga, Soberana Sinfonia e Alma das Andorinhas.

Sua filha nos diz que a sensibilidade de João Cabete foi aguçando a tal ponto que, dentro de muitas lembranças, ela diz que certa feita estavam vendo o jornal na televisão, quando notícias da Guerra do Vietnã começavam a serem dadas. "Olhei para ele, e pude ver estampada em seu rosto uma tristeza inexplicável, pois ali estava um homem, dinâmico, inteligente, e que por tudo que tinha dentro de si, sentia-se responsável pela paz entre os homens, obrigado a suportar imagens cruéis, vindas do outro lado do mundo, sem poder fazer nada. Acho que enquanto todos pensávamos da mesma forma, ele orava em silêncio, digo isso pelo ambiente que se formou à nossa volta, inclusive de constrangimento por sabermos como ele se sentia, e mais uma vez ele deu o exemplo da iniciativa. Levantou-se com serenidade, dirigiu-se à sala do piano, e acredito eu, deitou-se no colo da fé, acariciado pela arte, deixou sob lágrimas que o sentimento lhe trouxesse mais uma obra do amor, a música Fim dos Tempos".

Uma das características bem marcantes da personalidade de João Cabete era a sua perseverança. A grande força que o fez vencedor. Mantinha a sete chaves os grandes trunfos para o futuro: a arte, o amor e a fé.

A ARTE... Desta ele sempre usufruiu, pois tinha o dom da música em seu espírito. Viveu a época das serenatas e não a deixou passar em branco. Autodidata, aprendeu a tocar violão, o velho e inseparável amigo e espalhou pela sua juventude as músicas românticas que lhe tocavam o coração.

O amadurecimento foi chegando e João Cabete começou também a compor. Chorinhos, canções, músicas que ficaram perdidas, ou gravadas pelos poucos momentos que ele tinha para se dedicar a uma vida artística como profissão. Não que ele não tenha tentado, chegou a se apresentar em programas de rádio naquela capital, no entanto sua vida profissional o conduziu para o interior do Estado. Junto da família, sempre a arte estava presente e unida.

O AMOR... Deste ele fez uma bandeira, plantou-a em seu peito, arregaçou as mangas e começou a realizar os sonhos. Na cidade de Cruzeiro, na fase em que começou a se estabilizar por definitivo sua vida profissional e financeira, o amor que também fazia parte da família, tornou-o irmão da arte. João Cabete começava então uma nova fase de sua vida, onde os sonhos se realizavam na alegria de sentir que desta irmandade, Deus dava-lhe em luz o acesso ao terceiro trunfo para a felicidade, a Fé.

A FÉ... Desta que sempre trouxera dentro da alma, aquela que se manifestara em tantos momentos difíceis, das lágrimas, agora lhe mostrava a face, frente a frente, e assim ele a fez também como um membro importante da família, chamando-a de Jesus.

A fé tornou-se então irmã do amor e da arte, assim compunha-se à família de João Cabete e com a ajuda destes três maravilhosos entes queridos ele criou os seus filhos.

Todavia a fé, o amor e a arte, adotados por ele, tomaram-lhe conta do coração e os sonhos que pareciam impossíveis, aos poucos se tornaram realidade, pois naturalmente quem adota estes três terá adotado o mundo e quem adota o mundo sente-se responsável por ele.

João Cabete a todos os instantes buscava através da música mostrar os ensinamentos de Jesus e as mensagens de paz, amor, felicidade e harmonia.

A João Cabete o que não lhe faltava era a responsabilidade. Muitas vezes parecia exagerada, mas ele ia à frente. Companheiros bons também não lhe faltaram. Realizou um grande sonho: Lar Carmen Cinira. Um abrigo para crianças abandonadas. Com o tempo ele já não sabia quantos filhos tinha, pois as crianças iam crescendo e todas o chamavam de pai, e à sua esposa de mãe, foram tempos de grandes realizações espirituais para o casal, muitas almas se encontraram naquela entidade filantrópica, muitas crianças foram encaminhadas, com certeza aos seus verdadeiros pais. Esta casa para crianças ainda existe, funcionando agora como cheque para crianças carentes e sabemos que esta é uma herança que enriquece o espírito a cada dia; afinal este trabalho continua unindo a família de João Cabete e amigos inseparáveis. João Cabete entregou-se por completo às instituições espirituais, a arte obrigou-lhe também a tocar piano, encarregando-se das melodias, a fé trouxe-lhe as letras e o amor fez com que ele saísse para todas as cidades e lugares que o chamassem, para então distribuir a paz.

Este deve ser o lema de quem decide através da arte, da música espírita levar o evangelho de Jesus: estar onde o compromisso aparecer, onde a oportunidade bater as portas.

Infelizmente o coração físico de João Cabete não comportava tanta atividade e por ser ele tão emotivo, as palestras que ele fazia ao violão foram sendo reduzidas, o que lhe causava grande sofrimento. Não poder estar viajando e se encontrando com os amigos que tinha por todo o Brasil lhe trazia grande angústia.

Em sua carta, Dinazara nos diz: "Falar de João Cabete como meu pai torna ainda mais difícil porque ele foi um pai que sempre pensou muito na família. Era amoroso, amigo, presente. Como avô, excepcional. Os netos eram pequenos quando ele se foi, mas lembramos dele até hoje. Temos notícias através de mensagens, principalmente através da mediunidade de Glória Caribé (amiga da família). Com relação a letras ou músicas inspiradas por ele a outras pessoas não podemos informar. Não foram confirmadas. Não liberamos os direitos autorais de suas músicas, mas damos autorização para grupos que queiram gravar suas músicas. Não temos nenhuma biografia dele publicada. E assim foi a vida de papai. Ele faleceu do coração em 26 de agosto de 1987. Sentimos muito a sua falta. Aprendemos muito com ele. Só temos a agradecer".

Hoje no Plano Espiritual Cabete deve estar radiante. Ele que tanto homenageou mentores, espíritos, hoje também recebe merecidamente uma singela homenagem.

 

Homenagem

Com toda certeza, não pelas obras, das quais ele nunca se intitulou dono, mas pelo exemplo da iniciativa de propagar a paz, por mais distante que estivesse deste alcance, João Cabete fez sua parte, por pequena que pareça, mas fez.

E assim foi João Cabete, com todas as falhas de um ser humano, mas especialmente com todas as características de um soldado da paz, que soube deixar a todos nós, acompanhado pela arte, o amor e a fé inabalável, grandes exemplos...

E agora, depois de sua partida, ficamos olhando as marcas dos passos deste eterno músico. Cada letra é um abraço, cada poesia é um carinho e cada música é uma árvore que ele plantou para que pudéssemos estar sempre abrigados nesta floresta maravilhosa da fraternidade.

OBRIGADO CABETE!

(Texto escrito por Wellerson Santos e utilizado na Reunião de 3O Domingo do mês de abril/2003 na Fraternidade Espírita Irmão Glacus em homenagem a João Cabete. As fontes de pesquisa deste trabalho foram revistas, periódicos, letras de músicas e com seus familiares, recebendo inclusive uma carta de uma de suas filhas: Dinazara Lourdes Cabete)

início